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Representatividade x Representação: entenda a diferença e a importância

As idealizadoras do Criando Crianças Pretas, Deh Bastos e Paula Batista, são as nossas colunistas mensais sobre comunicação antirracista. Elas são especialistas no assunto e prepararam um pauta que vai te ajudar a entender a importância e o impacto social da presença de minorias em cargos e posições de poder. Quer saber como? Confira abaixo!

Como é bom ver pessoas como a gente estampadas nas capas de revistas, nas propagandas da TV e nos desfiles de moda. E quando nos vemos num personagem de destaque, isso é muito incrível! Se para nós, pessoas negras, é raro imagine para quem é trans ou portadora de deficiência? Porém, só aparecer não está mudando muito as realidades, né? Então quer dizer que representatividade não importa mais?     

Aparecer é muito bacana, mas essa visibilidade seria muito mais constante se nós fôssemos as donas da p* toda... Tudo que vemos nas diversas e diferentes mídias passam pelo olhar, critério, gosto e dinheiro de algumas pessoas. Se essas pessoas forem sempre iguais, os critérios, o olhar, a forma de pensar e conduzir será sempre a mesma. 

"REPRESENTATIVIDADE IMPORTA" virou um dos bordões mais famosos da luta antirracista. O problema é que estamos usando o termo da forma errada e dando importância ao que não muda a realidade. Peraí, que te explico! 

Quando alguém que faz parte de uma minoria aparece nas telas, nas capas de revista e etc, muitas vezes é dito que representatividade importa, porém isso não é representatividade e sim representação, que é quando uma pessoa representa um grupo de pessoas. Representação também é importante. 

Mas representatividade importa muito mais, entenda o porquê: no dicionário, o termo "representatividade" significa representar politicamente os interesses de determinado grupo, classe social ou de um povo. Ou seja, não é apenas aparecer numa propaganda ou na bancada de um jornal, na novela das 9h ou na nossa série preferida, embora também seja muito importante. Representatividade é muito mais, é estar nos espaços de decisão, ter o poder de mudar e de fazer com que outras pessoas como você também tenham poder de decisão. Representatividade é ir lá e mudar as estruturas de poder por dentro. 

Quando uma diretora negra faz um filme ou uma novela (atualmente não há oportunidades para diretoras negras fazerem novelas), ela provavelmente terá outro olhar para a escolha de um elenco. Quando a diretora de uma empresa for mulher, ela provavelmente terá outro olhar para a contratação dos funcionário, inclusive daqueles que ocuparão cargos de liderança. Se uma mulher trans for eleita deputada (isso já é realidade), ela provavelmente trabalhará por políticas públicas para contemplar esse grupo de pessoas. Aparecer é legal, mas não muda a estrutura de poder.

Atenção: usamos a palavra provavelmente, pois sabemos que isso não é necessariamente uma regra, mas uma probabilidade maior dos fatos acontecerem.

Pense na seguinte cena: a câmera está virada para os personagens que vão aparecer num comercial de um banco e, dos cinco personagens, um é negro, duas são mulheres, um é homossexual e outro, hétero. Isso é muito legal, mas quando a gente vira a câmera na outra direção, quem é a pessoa que está sentada na cadeira de direção da propaganda? Quem tomou a decisão de escolher o casting? Quem escreveu o roteiro daquele comercial? Quem contratou os profissionais? Quem deu o dinheiro para que tudo aquilo acontecesse? Por fim, quais serão as pessoas que ganharão mais dinheiro naquele ambiente?

Enquanto as marcas acharem que colocar diversidade na estampa é o suficiente, que representação basta, nunca vamos ocupar os lugares de mudança e decisão.

Claro que ocupar todos os lugares é importante, uma criança ver alguém como ela apresentando um jornal é fantástico, mas entenda: Quando pessoas diversas aparecem, isso é representação. Quando pessoas diversas tomam a decisão, isso é representatividade. O que você quer ser?

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