É preciso se reinventar: as fases do luto e o Covid-19
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É preciso se reinventar: as fases do luto e o Covid-19

Quero mesmo voltar à rotina do escritório? A minha vida está alinhada com os meus propósitos? Por que eu compro tanta coisa que não preciso? Eu realmente gosto dessas pessoas? O quanto vale a saúde humana? Qual é o preço para sairmos dessa ilesos? Por que a minha vida é assim? 

Você provavelmente já se questionou durante a quarentena. Tá complicado, eu sei. 2020 mal tinha começado e eu achava que seria o meu, o seu, o nosso ano. Eu tinha certeza que agora ia. 2019 foi um ano estranho pra muita gente, mas 2020 sem dúvida conseguiu nos surpreender.

Sabe aquela história de que o ano só começa depois do Carnaval? Pois bem, não começou da forma que a gente estava acostumado. A sensação é que quando a pandemia passou a ser o principal assunto dos noticiários e das nossas preocupações, tudo ficou suspenso, pairando num limbo desconhecido sem a menor perspectiva de até quando nem de como será daqui pra frente - e esse sentimento é angustiante.

Estamos lidando com a perda coletiva das pessoas que o coronavírus levou e, também, do mundo que conhecíamos. Sem querer soar dramática, mas me parece improvável um cenário pós-pandemia sem quaisquer resquícios do que estamos vivendo. É consenso entre especialistas, aliás, que haverá um “novo normal” - não dá pra gente simplesmente fechar os olhos, virar a página e seguir como se nada tivesse acontecido.

Esse sentimento de perda é também entendido como luto. Em 1969, a psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross identificou as cinco fases não lineares do luto pela perda de alguém (negação, raiva, barganha, depressão e aceitação), que posteriormente foram estendidas pelo especialista David Keller para incluir qualquer perda pessoal significativa, como a perda de um emprego ou o fim de de um relacionamento.

Estamos vivendo, portanto, um luto antecipado pela realidade que estávamos acostumados e, também, pelos rumos que esperávamos seguir. Dá saudade daquilo que ainda não vivemos, né, minha filha? 

Se, por um lado, calamidades e a morte sempre estiveram presentes, ainda que bastante dolorosas, por outro, nunca sofremos por tantos aspectos “menores” da vida de uma só vez na história recente. E, justamente isso, o amontoado de coisas que poderíamos estar fazendo - o churras com os amigos, a reunião presencial, o abraço em quem a gente ama, os dates e até mesmo a rotina que julgávamos tediosa - está fazendo falta e alimentando a tristeza. Aí, se somar com o medo de perder entes queridos, o receio de perder a fonte de renda, a distância, a solidão e a desesperança de retornarmos à vida que levávamos, a situação complica.

Para seguirmos em frente, essa angústia precisa ser compreendida. As etapas do luto não ocorrem na mesma ordem e proporção para todas as pessoas, mas eventualmente nos atinge. A negação é a crença de que não está acontecendo nada tão grave, que os veículos estão mentindo ou que o vírus não vai te atingir - aqui, não é manter o pensamento positivo, mas sim ignorar os alertas e a crise. A raiva é por estarmos forçados a ficar em casa enquanto a vida poderia estar seguindo de outra forma. A barganha é a negociação entre você e o universo, é achar que por já estarmos abrindo mão de muita coisa, não seremos afetados. A depressão é a falta de perspectiva por não sabermos quando tudo vai passar, ao passo que a aceitação é quando nos sentimos tranquilos perante aos acontecimentos - pode não ser uma fase exatamente feliz, mas é quando conseguimos enxergar a realidade sem nos desesperar para, então, aprendermos a conviver com o novo cenário. 

Por mais catastrófico que tudo isso pareça, a pandemia nos impulsiona à reinvenção. Diversos pesquisadores já apontavam a necessidade de repensarmos algumas concepções, bem como certas atitudes - e se essa mudança não foi possível quando tudo “estava normal”, agora está mais do que na hora.

A crise que se alastra na saúde, na economia e na política é, também, uma crise de significados. O consumo desenfreado há tempos carece de atenção, a perfeição intangível das vidas exibidas nas redes sociais mais prejudica do que inspira e uma interação social com pessoas queridas talvez antes não tenha tido o seu valor devidamente reconhecido.

Não acho que de uma hora para outra mudaremos por completo esses e outros valores, mas acredito que, de alguma forma, serão repensados. Se entre as fases do luto há a negação, em que a pessoa se recusa a aceitar que algo ou alguém se foi, quem se nega à realidade num contexto de crise é deveras criticado pela falta de empatia. Um dos exemplos mais evidentes é o anacronismo dos influenciadores digitais que continuam produzindo conteúdos alheios a essa situação toda - será mesmo que o público se conecta com a ostentação durante o isolamento social?

Pode ser que essas pessoas estejam realmente comunicando as suas realidades e essa exposição seja mera parte do trabalho, mas em um contexto de demissões em massas e filas quilométricas para conseguir o auxílio emergencial, a discrepância é enorme. O novo normal deverá ser mais empático e as pessoas, mais conscientes de suas responsabilidades.

É provável, também, que ficaremos mais atentos à higiene e receosos quanto às aglomerações por ainda um bom tempo. O novo normal pode até assustar num primeiro momento, já que o rompimento de hábitos e rotina não foi opcional, mas as pessoas terão de se acostumar.

Aceitar que as coisas estão mudando não significa manter-se inerte esperando que se transformem sozinhas. Pelo contrário, a aceitação é justamente se reinventar, fazer do limão uma limonada, para então poder seguir em frente. Fomos expostos à vulnerabilidade humana, mas também à nossa capacidade de adaptação. Nós vamos sair dessa, mas um pouco diferentes. Só precisamos descobrir como nos reinventar.

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